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DA EXISTÊNCIA:

 

 

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DO AMOR:

 

 

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DA ESPERANÇA:

 

 

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DORES DE LUZ E DE SOMBRAS

A intenção desta dor
É a mesma da semente
a arrebentar o solo
Para ser flor ou  fruto;
A mesma de um parto
Que expulsa a  vida;
A mesma das travessias oceânicas
na espera de novas terras;
A mesma, ainda,  das estrelas,
que desmaiam para  o sol.
A mesma dos mergulhos profundos:
Pulmões trancados, ávidos
pelo reencontro com o ar.
Ao final dessas dores,
Fez-se  vida,  frutos, flores, manhãs, ar.
São dores benignas,
Dores do tanto que 
o desejo sonhou.
Nomeio-as “Dores de Luz”.

  
Mas há dores outras,
de intenções frágeis,
Como a do fruto
a despencar exausto,
Disforme,
- o tempo passou, não lho sentiram sabor;
Dor de vida que se aborta;
Dor de estrelas,
Que o cinza vem tragar,
Dor de naufrágios,
Antes do "terra à vista!";
Dos mergulhos sem volta,
Da falta de ar.
Fez-se o nada
Dessas dores de fim.
Tudo foi desalento.
São  "Dores de Sombra".
Doer pela esperança de Luz.
 
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DOWNTOWN

 

Corpos  se animam sem verdade

Confundem-se às luzes da cidade.

Downtown... Oh yeah...

Rito que apressa os passos,

Solidão que nem se percebe,

Dança louca e sem compasso...

 

É como se fosse a vida...

Mas não pode ser a vida!

 

Templos de incongruências.

Forma antes de essência,

Vento de ar viciado,

Sobre caminhos de asfalto,

Ponto de reverência?

Ponta de referência?

Downtown...

 

É como se fosse a vida...

Mas não deve ser a vida!

 

Profanação de enredos,

Esculturas glaciais,

Há u’a mancha de medo

Nas expressões faciais..

 

É como se fosse a vida...

Mas, com certeza, não é a vida!

Down Down

Town Down

To Down

 

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DICOTOMIA

 

Entenda-se a criança

E o ancião,

Pelo vir a ser,

Pelo já ter sido.

Entenda-se os crédulos

E os céticos,

Pela força de um credo,

Pelos credos esquecidos.

Entenda-se os poetas

E os ascetas

Pelo encanto do lirismo,

Pela força do destino.

Entenda-se aquele que pergunta,

Como aquele que responde.

E o movimento da interrogação

Para o eixo das respostas.

Entenda-se

A frente e os lados,

Os versos e os inversos,

Os diversos.

Entenda-se o tempo e

A mutação dos elementos.

A atividade e a relatividade.

Entenda-se o mundo

qual e tal,

Tal

e

Qual?

 

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DESAPRENDENDO

 

Saber demais -> desaprender.

Todos os nomes,

Todos os livros,

Todas as doutrinas

Sacrificaram

Gerações espontâneas.

 

Todas as teorias,

Todas as metafísicas

Alimentaram tua memória e

Enfraqueceram teu coração.

 

E tu já nem mais sabes

Estar distraído,

Pois que aprendeste

A explicar demais.

 

Saber demais é nada saber.

Porque nunca se sabe demais.

Porque vida

Não se aprende em manuais,

Porque Homens

Não se aprende sem amá-los.

 

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MUNDO  CÃO

 

Deixe que eu viva

No meu mundo são ,

Deixe eu viver então,

mundo cão...

Não ladre, não morda.

Deixe-me passar.

- Quieto!!

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 CORRENTEZA

 

O tempo tem sentido único,

É  correnteza.

Expeliu o homem

Do ventre materno,

Atirou-o ao mundo.

Ditou-lhe o que deveria ser,

Continuando seu movimento ordenador.

Traçou o caminho das primeiras rugas,

Surpreendeu todas as fugas,

 

O tempo é correnteza

Onde o corpo naufraga

E a alma se liberta.

 

 

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GRADES

 

Risos perdidos

Gemidos concisos

Pavor mascarado

Silêncios quebrados

Com palavras mudas,

Hálito de consciências surdas,

Uma guerra e um guerreiro

No cenário crepuscular

Da existência.

 

Por que há momentos

Em que cada ser

É o prisioneiro

E o próprio cárcere?

 

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TRÊS TEMPOS

 

Primeiro,

Arrancaram-te do ventre materno.

Uma atmosfera trêmula envolveu,

fria e caótica,

As estacas do novo mundo.

Os  ares   foram amornando

Teu sorriso de criança.

Infância!

Verbo presente, em primeira pessoa.

Tempo indulgente

Onde livremente

Podia-se pecar,

Cair,

Levantar.

Tempo de mãos de amparo,

Dos sonhos mais caros,

Do brilho mais raro.

 

Depois,

A indômita avidez da juventude

Tomou conta de ti.

Era a vontade de ir

Com as intempéries.

Era o deslumbramento,

O desmembramento,

Os olhos cegos de paixão.

Verbo no futuro,

Em todas as tuas pessoas,

Em todos os teus plurais.

Fantasmas e ídolos

De areia e cristal.

 

Agora,

A vaga sabedoria de teu olhar

Vislumbra a maturidade.

Descansas  tranqüilo

Na tua história.

Contemplas, divagas,

Doce jogo

De esperança e memória.

Enfim a razão,

O movimento preciso.

Já tens o tempo

De justificar paixões.

Já consegues compreender

Os espasmos de teu coração.

Puseste o verbo  nos três tempos.

Entendes, afinal,

As terceiras dimensões

E os teus outros.

 

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ESPERANÇA     

Minhas  incertezas

Geraram uma filha.

Seu nome: Esperança.

Parto normal, com dor.

 

 

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LEMBRETE

 

Perdoe-se o ser ARMADO

Quando pretendeu,

Tão somente,

Ser AMADO...

 

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PALAVRAS

 

Fluirão argumentos,

Retóricas,  teorias,

Em pronomes bem colocados,

Verbos  contundentes,  e,

quase sempre,

Em sujeitos muito ocultos.

 

Então, perguntar-me-ei

Qual o sentido das palavras ,

Quando os olhos brilham

Ou o pranto inunda.

 

O que é a palavra

Diante da eloqüência silenciosa

Dos sentidos?

 

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ABDICAÇÃO

 

O que faço com o poder,

Se o acaso mo coloca

Nas mãos?

 

O que faço com as mãos?

Aponto e ordeno?

Coordeno e condeno?

 

O que faço com as decisões

Ao  meu alcance?

Escolho uma?

Apenas uma?

Com o poder nas mãos,

Não mais me é concedida

A opção dos desvios,

Nem absolvição

Para mortais fraquezas.

 

O que faço com esse mito,

Se tão somente almejo

Poder sonhar?

Meditar,

Sem medir,

Sem ditar...

 

Sei o que faço.

Abro as mãos,

Abro os olhos...

Abro mão.

Abdico.

 

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CONSISTÊNCIA

 

Deixa que minha ira

Seja a mais feroz

E a mais selvagem!

Que te abomine

E te espante,

Que transborde pelos olhos,

Que segregue pelos poros,

E faça tremer o corpo,

E faça tramar revanches,

E se desfaça por si.

Deixa que minha ira

Seja sincera...

 

Deixa que minha paz

Traduza-se em tons pastéis,

E saiba ser mansa,

De preguiça crepuscular.

Deixa que me sele nos olhos

A placidez de calmas imagens,

E veleje no silêncio

Das horas sem pressa.

Deixa que minha paz

 Seja sincera...

 

Deixa que minha angústia

Faça sombras e escureça,

Que seja a mais amarga e lúgubre,

Que fulmine,

Extermine-me,

E, contudo,

A mim não mate,

Para não haver repouso.

Deixa que minha angústia

Seja sincera...

 

Deixa  minha alegria

Com jeito de trilha sonora.

Que seja piegas,

Que abuse de risos

E esqueça de cérebros.

Deixa que faça barulho

E se vista de festa,

Deixa minha alegria

Pensar ser eterna.

Que cante, dance e pulse

Sem resistências.

Deixa que minha alegria

Seja sincera...

 

Deixa que minha loucura

Ameace a ordem pública,

E possa transcender e transgredir,

E possa te agradar e te agredir,

Espantar, apontar, desapontar.

Despontar de repente,

Em disritmia,

Súbita contradição

De medida e de paixão.

Deixa que fale em superlativos

E pinte cores berrantes.

Deixa que minha loucura

Seja sincera...

 

E o amor,

Deixa que se cale,

Para que não deixe de ser

Sincero...

 

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POETA DE MEUS DIAS

 

Gostaria de escrever a vida

Como se estivesse

A cantar simples canções.

Rimar naturalmente

"esperança" com "criança",

"Amor" com "uma flor" ,

E terminar com versos

Tenros de  sonhador...

 

Mas não há tempo
Para rimas de mentira...

 

Uma pressa devastadora

Encurta o tempo das verdades e

Seduz o homem

Com diabólicas realidades.

 

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PROLONGAMENTO

 

O que sinto é apenas

O prolongamento

Da dor que me deu  origem.

 

O que sinto é a violência

Do parto que me deu   a vida.

 

O mesmo medo de nascer

O   mesmo medo de viver ,

O mesmo medo de morrer...


   
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JOGO DE PALAVRAS

Palavra,
Me lavra,
Me livra,
Me leva
Me entorna
Me torna
Palavra.

Palavra,
Me berra,
Me grita,
Me escreve,
Descreve,
Bem dita,
Me...dita.

Palavra...

Cruzada,
Velada,
Vedada,
De honra
Desonra,
Sagrada,
Profana,
Mal...dita
Palavra.

Sintaxe
Sem chave,
Sinta-se
Sem nexo,
Sem jogo
no jogo de

Palavras...

Palavra,
Lavra, lava de
Vulcão,
Palavrão.
Verdades
Que a palavra
Mente...
(Se mente...)

Perdida... mente
Palavras.
 

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DOS PÉS À CABEÇA

 

Sob os pés:

chão.

Sobre a cabeça:

céu.

 

Entre chão e pés

fez-se história.

Entre cabeça e céu

fez-se sonho.

 

E, entre

pés e cabeça,

ainda bate

um coração.

 

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SELEÇÃO  ANTI-NATURAL

Oh, heróis!

Cumpram sua saga,

Paguem o seu preço,

Determinem o meio,

Transformem o planeta,

Meçam forças com a natureza!

Sem mim,

Porque eu não posso...

 

Sequem nascentes,

Tranquem  risos,  cios,

E chamem a isso de glória.

Cumpram a biologia

Ou a história!

Sem mim,

Porque eu não posso...

 

Vou morrer de

Cumprir o meu ser...


   
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MADRUGADA

 

Somente eu,

Semente indivisível

De uma existência

Que, só, mente

Para dissipar vazios

E medrar os sonhos.

 

Eu, somente.

Eu, semente,

Com o aperto das palavras

Trancadas nesta madrugada.

  

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À MINHA ESPERA

 

Cheguei

E encontrei-me aqui,

À minha espera...

 

Nada aconteceu lá fora...

 

Cheguei ,

Tropecei nas sombras,

O corpo tombou sobre a alma.

A história caiu

No silêncio

De minha geografia.

   

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REFERENCIAL

 

A noite pontua no céu

Uma lua redonda,

Redonda como meus olhos,

Redonda como seios fecundos,

Redondas como cabeças que

Desfilam pelas avenidas...

 

E eu sinto

Que há menos distância

Entre mim e a lua

Do que entre os homens.

   

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ATESTADO DE ÓBITO

 

Devo morrer ou

Ou ouvir um jazz?

Devo ouvir um jazz.

Pois,

Se morrer é condição dos vivos,

Nem morrer é preciso.

Aqui jazz.

  

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ATESTADO  DE  VIDA

 

Algo em mim fibrila e dança,

E anseia com força viver.

Algo em mim cintila e canta,

E teima em, depois das ruínas, arder.

Algo em mim insiste,

Assim como flores que brotam de pedras,

Assim como adubos que renovam a terra,

Assim como quem sempre espera

Nascer...

 

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DESBOTADO

 

Deixa sangrar,

Deixa falar,

Deixa desbotar,

Como portas e janelas

De longínquos vilarejos,

Como o azul do seu "jeans".

 

Deixa ficar,

Deixa deformar,

Deixa transformar,

Deixa a vida

Ser exatamente como é...

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EU, MARGINAL

 

E tudo o que corre

Entre as margens

É a vã imagem

Do que já não sou,

De fingir que vou.

Eu, marginal...

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FANTASIA

  

Sonhar...

Tirar leite das pedras

Construir utopias

De  leite,

De pedras,

Para que se legitimem

Novas realidades.

 

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POEMINHA ANTIFEMINISTA

 

Digam a essas mulheres

Que o amor não disputa poderes,

E que elas fazem muito barulho

Gritando direitos

Que ninguém as impede de ter.

 

Digam a essas mulheres

Que toda dependência,

Ou toda independência,

Não se comparam

A uma cena de amor.

 

Digam a elas

Que conferi plenos poderes

Ao homem que escolhi,

E nos dominamos,

E nos entregamos

Na intermitência da emoção.

Igualdade se faz

Com o coração.

 

Digam a elas

Que liberdade

Não é a hegemonia

Nem o plural da cama,

Mas a divisão da vida,

Dos sabores, da comida.

 

Digam, ainda,

Para que olhem a si próprias,

E que deixem de histórias,

Pois estão tão carentes,

Perdidas,  doentes,

Mesmo sendo independentes.


  
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ESPELHO

 

Diante do vidro encantado

Que me reflete à luz

- limitável razão geométrica -

Desfiguro a face

Até alcançar o fundo...

 

No fundo

Vejo  a alma,

Na alma

Vejo o tempo

Com fendas e lendas...

 

Face a face,

Já não sei quem sou.

Tudo se mistura e deforma

À reprodução do real.

 

Face a face,

Perco os olhos

Na infinita ilusão da imagem

- minha paisagem -

 

Espelhos descrevem,

Apenas descrevem

A superfície plana

Que não se constata.

E eu confundo,

Por vezes,

Rosto com máscara...

 

E o espelho, cruel, escarnece:

- Mentira!!!

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RUÍDOS

 

Estanco minha voz ao te ver,

E deixo correr o sangue

Nas palavras mudas,

Como um curso de águas vermelhas

Na profundeza de seu talvegue.

 

Estanco minha voz,

Enquanto os olhos gritam

Um silêncio que te faça

Ouvir a voz da tua dor,

Mais dor porquanto

Enterrada,

Adornada,

Mascarada.

 

Estanco minha voz

E  te olho,

Para que ouças melhor

Os ruídos de tua

Humana realidade.


  
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PRECE PROFANA

 

Deus,

Que me dirijo a Vós

Porque sou humano

E porque Vos duvido.

Deus,

Por que sóis tão oculto?

Por que sóis tão cindido?

 

Eu,

Caminhante só,

Que Vos aprendi

Na abstração.

 

Eu,

Carne pensativa,

Que Vos inventei

Para explicar o sol,

Os pássaros e as manhãs.

 

Eu,

Sangue envenenado,

Que Vos acredito

Prá Vos duvidar.

 

Eu,

Que por duvidar,

Dirijo-me a Vós,

Sem humildade, sem castidade,

Buscando-vos sempre

Na unidade do meu ser,

Na diversidade dos imorais,

Em metáforas de pranto e riso.

 

Eu,

Que agora me duvido,

Prostro-me a perscrutar-vos

Na incerteza de minha prece.

 

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TUA DOR ME INCOMODA

 

Vem, vem!

Que aqui estou

Prá te mostrar o sol.

Vem te expor,

Doer prá  fora,

Expulsar o hálito

Da amargura.

Tua dor me incomoda.

 

Deixa teu peito aberto

Como um varal de histórias

Úmidas e entrelaçadas,

Tecidos dolorosos que o calor

Logo vem secar.

 

Ei, não me leves a mal.

Perdoa-me se não posso contigo doer,

Perdoa-me se invado assim

O ar viciado de tua tristeza.

É que tua dor me incomoda.

 

Perdoa-me

Se inoculo em ti

Simulacros de esperanças,

Sem oferecer certezas.

Perdoa esta inepta amiga que,

De tão egoísta,

Prefere-te fagueiro e festivo,

E não te deixa

Doer em paz.

É que tua dor me incomoda.  

 

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ENCONTRO

 

Perdoa, amor, as dores do mundo,

As guerras e a lama entre os homens.

Não era hora de tudo acontecer

Quando fui ao teu encontro.

 

Perdoa a realidade crua

Ao redor do nosso tempo.

Perdoa a geografia menos verdejante

E a história mais sedenta de poder.

Absolve a amargura das consciências,

A violência e a deformação das faces.

Não era hora de tudo acontecer

Quando fui ao teu encontro.

 

Perdoa a retórica destes dias,

Os temores recrudescidos,

Os escândalos e os absurdos.

Perdoa a ausência de liberdade,

O trânsito engarrafado,

A maldição dos sinais,

A impureza do som

E a bruma negra nos ares.

 

A hora do nosso encontro

Deveria conhecer um mundo mais feliz,

Onde meus olhos te pudessem descobrir

Entre flores e ar puro,

Onde as criaturas tivessem

Música dentro de si

E risos mais  freqüentes.

 

Perdoa também a mim,

Que não posso mudar os acontecimentos

Para te encontrar,

Mas,

Tão somente,

Acontecer entre eles.

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    CAIS

 

Você me veio,

Você se foi,

E eu me fiz

Cais sem acenos,

E lhe ancorei,

E me despedi

Em silêncio,

Sem adeus...

 

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FUNDO DE OLHO

 

No fundo dos olhos,

A fugaz esperança,

A luminosidade indiscreta,

Machucada de esconderijos.

 

No fundo dos olhos,

A certeza,

A impossibilidade do desvio,

A dor quase feliz

Das condições metafísicas.

 

No fundo dos olhos,

A promessa,

Os risos, os devaneios e

As palavras não pronunciadas.

 

No fundo dos olhos,

A supressão do tempo,

0 silêncio revelador

De todos os recônditos.

 

No fundo dos olhos,

A luz teimosa

Da verdade.

 

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CASTIGO

É preciso fechar os olhos,

Refrear a ingenuidade dos ímpetos;

É preciso acabar com as memórias,

Esquecer as histórias.

É preciso construir um cárcere

Para não ir correndo buscar

A tua presença.

 

E quando da confluência dos caminhos,

Ter de calar o desejo

E te afastar com ironia nos gestos,

Porque já não existe chance,

Porque esmagamos todas as oportunidades

No asfalto das pequenas vaidades.

 

Sei bem do quanto

Ainda tenho de sofrer.

Sei que algumas vezes

Surpreenderemos os olhos

Chamuscados de efêmeras esperanças,

Desvanecidas ao momento seguinte.

 

Sei que pensarei distraída:

"Poderia ter sido"  ,

Como sei da certeza

De não mais poder ser.

Sem  direito do retorno,

Tombaremos paulatinamente

Sobre antigos sonhos,

E assistiremos inertes

Ao distanciamento dos passos.

 

Mas sinto que,

Por castigo,

A vida inteira

Há de lembrar-me este amor.

E pela vida inteira

Tentarei dizer adeus.

 

 

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 REVELIA

 

Já vai longe a distância...

Estrada sem volta.

Tempo correndo à revelia.

 

Estou tombando sobre o caminho

Que te leva de mim.

O vento sopra do passado

Alguns cruéis mistérios.

Um rosto,

Um riso perdido,

Um olhar,

Um beijo infinito.

 

Levantar e prosseguir.

Congelar os olhos,

Os lábios e as palavras,

Na certeza de não haver saídas,

Na incerteza do diabólico

Encanto do amor.

 

Não dá prá gritar,

Todos os sons escaparam

Com nossas desesperanças.

Não dá prá entender,

Todas as lógicas

Sucumbiram às circunstâncias.

Não dá prá esquecer,

A memória da dor não se cansa,

E as ilusões retornarão

À revelia...

 

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 CORAÇÃO  ERÓTICO

 

Erótico é meu coração,

Que assanha o corpo

E o reanima

Diante do amor.

 

Erótico é meu coração,

Que tudo quer aberto

E escancarado,

Que quer o prazer da carne,

Dos ossos, da alma

E da verdade.

 

O corpo?

- Mero instrumento de representação;

- Escultura da paixão.

Erótico é o coração.

 

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ESPÍRITO LÚDICO

  

Nós,

Peças perdidas

De uma partida de xadrez,

Inacabada, inacabável,

Sem "grand finale",

Sem possibilidades de fuga.

Parceiros e adversários,

Conforme o caso,

De um jogo eterno,

Num tabuleiro de

Defesas equilibradas

E movimentos estratégicos.

O rei, a rainha, as torres...

O ir e vir

Dos fluxos existenciais.

O rei, a rainha,

O cansaço da partida,

As torres desmoronáveis...

Não há vitórias,

Não há derrotas,

Não há riscos, nem diversão.

Apenas um tabuleiro entre nós

Informa a representação do vazio

Em jogos exatamente iguais.

Não haverá "xeque-mate",

Mas ambos estarão perdidos,

O rei e a rainha,

Sem reino,

Sem torres,

Sem vida.

 


 

             PARA SEMPRE

 

E se estivermos juntos,

Todos os dias terão brilho invulgar,

Todas as manhãs acontecerão mais claras.

Meus olhos alimentar-se-ão de teu riso,

Meu riso de teus olhos.

De dia, as pupilas contrair-te-ão,

Para de noite te dilatarem,

E o corpo delatará a alma

Derramada sobre a pele.

 

Nossos momentos conhecerão

A supressão do tempo

E a extensão da imortalidade.

Ser contigo significará

Ser prá sempre.

 

Eu te divinizo,

Tu me divinizas.

Nós, divindades,

Dividindo...

 

Muito sabor,

Muito saber,

Muitas janelas abertas,

E paisagens pelo nosso olhar.

Todos os dias serão prá sempre,

Todas as músicas serão prá sempre.

 

E,

se porventura desenharem-se

Rugas sobre a face,

Que sejam de tanto rir,

Ou franzir a fronte de claridade.

E, se houver pressa,

Que desconheça o cansaço.

 

Eu te faço  minha vida,

Gerada do encontro

De duas liberdades.

 

Através da tua singularidade,

Pretenderei,

Entenderei,

E amarei

Um mundo inteiro.

 

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 ABSTRAÇÃO

 

Com pesar,

O redor vive sem tua presença...

Se não te posso ter,

Contenta-me a fugaz idéia

De te ter.

 

Então te amo,

(ou a idéia).

Desenfreadamente te amo.

Porque o amor não age

Senão em sua própria

Abstração.

 

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NÃO PER DÔO

 

Não perdôo

Porque,

Tendo aprendido a perdoar,

Perdoarei pelo resto

De meus dias.

 

Não perdôo.

Dôo...

 

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     SINFONIA INACABADA

 

Não te vás ainda...

Nem ri todos os meus risos,

Nem explorei todas as nuances

Dos meus prantos,

Nem sorvi todo o licor

De tuas palavras.

 

Espera...

Não pontues as reticências.

Temos mais erros a fazer,

Mais pecados a cometer,

Mais sonhos a estilhaçar,

Mais dores a sofrer.

 

Não te vás ainda...

Os movimentos finais

Desta intempestiva sinfonia

Precisam se fazer ouvir

Até o fim.


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     SEMINU

 

De repente,

Numa síncope de entorpecimento,

Escapa a vontade irascível

De arrancar os segredos

Que derramam lentamente

Desses olhos teus.

 

Tudo sugere,

Nada informa,

Nada define.

 

De repente,

Irrompe o desejo louco

De me retalhar

Sob a escassa vazante

Desses olhos teus.

Mas,

Se  te  dispo,  se  me  rasgo,

Ficamos nus...

Nus,

Sem os esconderijos do medo.

Nus, em hemorragia,

Na escuridão

Dos próprios abismos.

 

Então,

Deixa assim,

Vazando devagar,

Com a idéia da nudez,

Jamais a certeza.

 

Deixa assim

Esses olhos teus

Seminus...


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NORTE A SUL

 

Ele vinha do norte,

Ela vinha do sul.

E, na fatalidade do encontro,

Dissolveram-se

Todos os pontos cardeais.

 

Ela pisava a terra,

Ele pensava em mar,

Ela atiçava o fogo,

Ele habitava o ar.

E fora bom amar...

Com todas as contrações

Das contradições.

 

Ele, o silêncio e a paz,

Ela e os carnavais.

Ele fazendo planos,

Ela contando enganos.

Juntos,  contavam os  dias,

Adiando o dia-a-dia.

 

Dia a dia,

Ele era mais ela

E mais ele era ela.

Já estava ele a pisar na terra,

E ela a pensar no mar.

Já estava ele a chamar o fogo,

E ela a viver no ar.

Ela, contando planos,

Ele, fazendo enganos,

Até que...

O retorno das direções

Soprasse distância

E mudasse previsões.

Então,

Ela, que já era ele,

Subiu ao norte.

E ele, que já era ela,

Desceu ao sul.


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POR NÃO PODER SER

 

Pudesse eu ser livre

E teria na boca o hálito

De todas as músicas, de todos os versos,

Só para te falar.

 

Pudesse eu ser livre

Só para falar de liberdade.

 

E, por não poder ser,

Derramo a lágrima que teria sido

O riso mais bonito,

Suporto a dor que deveria ser

De felicidade.

 

E, por não poder ser,

Crio silêncio nos gestos

E escuro nos  olhos

Para que a razão não te queira.

 

Pudesse eu ser livre

Para dizer que...


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 IMPERTINÊNCIA

 

Agora  compreendi.

Não te posso ter...

 

E eu, que encontrei teu riso

Na boca da noite

E guardei na minha,

 

Eu, que contemplei a vida

Na exposição policromática

Dos teus olhos,

E do teu saber  olhar,

 

Eu, só agora percebo

Que eras da vida,

E que eu só queria

Te ver viver.

Nada de pertencer.


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CULPADOS E INOCENTES

 

Eu não sei.

Você não sabe.

Nós sabemos.

- O que?

O que não devemos saber.

- Por que?

Porque é belo,

Porque é trágico,

Definitivo,

Enigmático.

- O que?

Eu não sei.

 

Na boca, o silêncio.

No gosto, infinita eloqüência.

Por favor,  não fale.

Já adivinhei sem querer.

- O que?

Não sei...

 

Mentira! Eu sei!

Sei de tudo,

Dos desejos absurdos,

Dos ímpetos profanos,

Do corpo em gritos.

Sei dos olhos,

Sei dos erros,

Sei dos muros.

Sei de nós,

Doces desvarios

Da imperfeição.

Culpados e inocentes

De cérebro e coração.

 

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 UMA  DOR  (Ou Um Desejo)

 

Ah, que meu desejo dói...

Dói de não saber

Como desejar...

Dói de dores felizes,

De aprisionar mãos, verbos, ar...

Dói de desejar apenas desejar...

 

Dói pelos subterrâneos,

Pela a alma que veste fogo

E atravessa o corpo.

Há dor na pele do desejo.

(Ar)dor na pele do desejo.

 

E dói também o fogo.

Dói também o frio

Das concretudes.

Dos dias, das razões...

Doem ainda sonhos e cios

Por se saberem sonhos

Por se saberem cios...

 

Ah, o meu desejo...

Que cobre de luz  caminhos

Que terminam logo ali,

E altera o sentido

Das notas dissonantes...

 

O meu desejo...

Que escolhe a fome

A morder a maçã.

Que não tem religião,

Refúgio,  chão...

 

Dói desejo meu...

Dói a desejar

A possibilidade do encontro que

Virá, ou não virá.

Não importa!

Pois que o tempo do encontro

Chega sempre antes ou depois

Do tempo de desejar.

 

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CENAS, CENÁRIOS

 

Caberia um pincel

Na ponta do lápis

Para dar palavras àquele tempo

E àquele lugar.

 

Caberia a composição da cena

Nas reverberações da memória,

Para reproduzir o sopro

Do vento em maresia,

A dança das casuarinas

A festa do luar

Na folia verdejante.

 

Caberia a remissão das horas

Para dizer do mar em espelho

E do sussurro das ondas

Cochichando sabe-se lá o quê

Aos personagens noturnos.

 

Precisaria, ainda,

Da mesma areia sob pés

E ao lado,

A mesma doce testemunha que

Comigo vibrou em êxtase,

Refletindo-me em liberdade,

Como o mar à lua.

 

Caberia em mim a certeza de que

Nem as casuarinas balançarão,

Nem o vento soprará,

Nem a lua brilhará

Como então.

 

Não haverá no mar o mesmo movimento.

E eu já serei outra, como sou agora,

Memória,

Moldura

Da vida transformada em tela,

Aprisionando para todo o sempre

A cena e o cenário.

 

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SEJAMOS RIDÍCULOS

 

Sejamos ridículos,

Escândalos,

Exageros,

Sejamos inteiros.

Sem medo de ser feliz,

A vida é o triz,

Do eterno aprendiz.

 

Sejamos um sonho,

Enquanto engrenagens

Bem reguladas

Trabalham austeras

Para quem

Falsos valores venera.

 

Ridículos, então

Sem choro na prisão,

A vida em exposição,

Que é bem menos ridículo

Do que viver

Sem esta emoção...

 

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 ÁGUA-VIVA

 

Tem de ser sempre assim,

Como um relâmpago sincopado

Que desponta de súbito

E escancara no céu

Um sorriso selvagem!

Tem de ser sempre mais,

Mesmo no "nunca mais"

Ou nas reversões.

Sempre muito mais

Demais...

Sempre, sempre

Como um caleidoscópio,

De cromático inesperado,

Na sorte das formas,

No acaso das cores,

Ressuscitar naturezas mortas...

Tem de haver sempre

A concavidade de um riso largo,

Como quarto crescente

Sorrindo na Via Láctea.

E, quando da pungência da dor,

Contorcer-se com beleza,

Verdade e expressão,

Num gemido cantado e humano,

Quase sorridente.

Passado, futuro, presente.

Ser água viva,

Que queima e arde ao relento,

Muito água,

Muito viva,

Desafios ao sol.

Ser, sem razão,

A razão de ser,

Pois que a verdade será sempre

A força do momento vivo,

quer nos pássaros ao céu,

quer nas raízes ao solo.

Ponta à cabeça...

Tem de ser mesmo assim,

Ainda...

 

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TRILHOS DE LUZ

 

Hoje pego o primeiro trem

Que sai da tua estação.

Longe, prá sempre longe,

De teu sentido sem sentido

De tua falta de direção.

Não mais paisagens

Que mãos não possam tocar;

Reversa viagem

Ao meu  próprio lugar.

Meu trem chegou.

Parto prá sempre

Do lugar que é teu.

Na bagagem, os verbos

Que a gente esqueceu:

Viver, Querer, Refazer.

Não, não é o trem que te levou

Para longe de mim,

Para longe de ti.

Adeus, parto em busca

De todas as buscas de mim

Trilhos de luz, sim.

 

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ORGÂNICA

 

O suor das andanças,

dos caminhos...

De tanto ir,

De tanto vir,

Eu tenho sede...

- Bebe!

 

O pão nosso

De tantos dias,

Tantos sabores,

Tantos senhores,

E eu tenho fome...

- Come!

 

A madrugada,

De tantas vezes,

De poucas vozes,

Tanto silêncio,

Cansaço imenso.

E eu tenho sono...

- Dorme!

 

A esperança

De tantos anos,

De tantos planos,

De tantos sonhos,

De tantas próximas realidades.

E eu tenho vontade...

- Força!


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 AMANHÃ

 

O amanhã virá,

Pois que nada poderá detê-lo.

O amanhã virá,

Com a força de cada novo dia,

Com a vida transformada

E o mesmo sol em outro lugar.

 

Virá com um riso na boca,

Com música e poesia,

Com  frutos de sementes

Que o passado escondia.

 

O amanhã virá,

Com a face translúcida

E os campos em flor,

Com as mãos de afago

E os Filhos crescidos

Falando de amor.

 

O amanhã virá, eu sei.

Mais depressa agora,

Que parto ao encontro dele,

Só para não deixar

Que relativas certezas

Imobilizem  procuras...


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PRÁ SE SER POETA

 

Há de ser do mundo

Para ser poeta,

Há de ser poeta

Para ser do mundo.

 

Há de se ter mãos homicidas,

Há de se ter mãos suicidas,

E jamais precisar

Morrer ou matar.

 

Há de se ter peito aberto

E não virar as costas.

Há de se chorar os risos,

Há de se sorrir as lágrimas,

Há de se ser quase um Cristo,

Ou  de se não valer  nada.

 

Há de se ser errante

Na busca da perfeição,

Há de se ser perfeito

No erro e na distorção

 

Há de ser poeta

Para ser do mundo,

Há de ser do mundo

Para ser poeta.

 

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NO SOL

 

Vem sol,

Com toda a força!

Derrama teus raios

Sobre meu corpo exposto,

Aberto à luz.

Aquece a pele

E me faz dourada.

 

Vem com força,

Atravessar meu corpo,

Incendiar meus dramas,

Arder meus sentidos.

 

Eu te recebo

Com todas as honras

Do estado de prazer,

Com todos os canais abertos.

 

Me faz fonte dessa luz,

Radiante,

Sorridente,

Feliz!