O Globo On Line
Data : Sexta-feira, 18 de abril de 2003
Artigo Olavo Carvalho
Satã Hussein e as pombinhas
Em boa hora o presidente George W. Bush recusou-se a fazer da guerra contra Satã
Hussein uma cruzada antiislâmica. O Islã é uma religião grande e sublime,
sem a mínima parcela de culpa no que revolucionários e tiranos fazem em nome
dela. Com toda a sua retórica feroz imitada do pa thos
religioso, eles e seus cúmplices já estavam de antemão condenados no versículo
da sura II do Corão, no qual Deus adverte: “E quando dizemos a eles: ‘Não
façais intrigas na Terra’, eles respondem: ‘Somos apenas pacificadores.’
O que eles são é intrigantes. Mas não o percebem.” Como não reconhecer aí
aqueles governos que, tendo fornecido armas atômicas ao Iraque, e antevendo sua
possível descoberta pelas tropas americanas, desencadearam uma campanha mundial
de ocultação sob o pretexto de “paz”? A culpa que eles carregam é sem
fim.
Só de prisioneiros políticos, o regime de Satã Hussein matou 33 por dia, sem
parar, durante um quarto de século. Calculem o preço, em vidas humanas, das
sucessivas protelações da ONU. A paz matou muito mais do que a guerra,
exatamente como no Vietnã. Se não lembram-se, posso refrescar sua memória.
Entre militares e civis, os combates tinham feito mais ou menos 800 mil vítimas,
dos dois lados. Retiradas as tropas americanas, os comunistas invadiram o Vietnã
do Sul, tomaram o Camboja e, entre os dois países, mataram três milhões de
civis, enquanto em Nova York as pombinhas da paz celebravam a humilhação
americana.
A situação agora inverteu-se: as pombinhas choram nas redações, enquanto o
povo iraquiano festeja o fim de seus sofrimentos, tão longamente adiado por
meio de palavras bonitas. Vejam a alegria nas ruas, as estátuas demolidas, as
efusões de gratidão às tropas anglo-americanas, e aprendam: não existe, em
toda a fauna planetária, bicho mais mortífero que a Pomba da Paz. Não por
coincidência, uma invenção de Stalin, com a colaboração de Picasso,
concebida para parasitar blasfematoriamente o símbolo cristão do Espírito
Santo.
Os Chiracs, os Schroeders, os Putins, os pacifistas a soldo do Partido Comunista
da Coréia do Norte, os denunciadores da “conspiração anglo-sionista”, os
pseudojornalistas que invocavam os demônios pedindo uma interminável Batalha
de Bagdadogrado (que acabou sendo a Batalha de Itararé) —- esses são a maior
quadrilha de genocidas das últimas décadas.
Por saber disso e desejar que ninguém o saiba é que, em desespero, a Guarda
Republicana da mídia brasileira apela a medidas extremas. Já não sendo possível
salvar a reputação de Satã Hussein, resta sujar a de seus inimigos. Um notável
jurista escreve que “o presidente dos Estados Unidos conseguiu demonstrar ser
mais eficiente em matar civis do que o déspota iraquiano”. Um comentarista
busca esfumar o perfil genocida do ditador caído, alegando que ninguém sabe se
mais mortes se devem a ele ou às sanções econômicas da ONU. E por toda parte
se dá por autodemonstrado que os EUA tudo fizeram por cobiça de petróleo, com
o agravante de que eles mesmos alimentaram de armas e munições o tirano que
agora derrubaram.
Nem em sonhos pensem que pretendo puxar discussões com essas pessoas. Toda
discussão pressupõe um mínimo de honestidade, exigência que as classes
falantes deste país julgam dever sacrificar a não sei quais ideais mais altos.
Os brasileiros que escrevem e falam tornaram-se uma mistura de Macunaíma e
Robespierre, somando à completa falta de caráter a indignação histriônica
de quem se imagina incorruptível. Em nome das belezas morais que sonham
encarnar, permitem-se gostosamente todas as mentiras, todas as baixezas, todos
os ardis e manipulações.
O pior é que cada um desses engodos se ergue em cima de uma complexa engenharia
sofística de pressupostos embutidos, cuja desmontagem requereria extensas análises,
não podendo ser realizada aqui. E o público, viciado na estupidez pomposa
desde os bancos escolares, já perdeu até mesmo aquele instinto lógico
elementar, que recua diante do raciocínio falso mesmo sem saber onde
precisamente se esconde o erro.
É inútil dizer ao lindo jurista supramencionado que a insensibilidade aos números,
o embotamento do senso de medida e proporção, é a marca mais nítida da falta
completa de honestidade intelectual. Ele não vê, nem verá jamais, a diferença
entre atingir acidentalmente algumas centenas de inocentes durante bombardeios,
e surrar até à morte, nos porões da polícia, 290 mil civis amarrados. Para
ele, é tudo a mesma coisa, e a segunda é até mesmo um pouco mais humana.
É inútil lembrar àquele comentarista que um homicídio doloso é ação
material direta exercida propositadamente contra a vítima, ao passo que
associar tais ou quais mortes ao efeito de “sanções econômicas”, mesmo péssimas
e devastadoras, é raciocínio estatístico indireto e conjetural, do qual só
um vigarista ousaria deduzir imputações de culpabilidade absoluta. Muito menos
é viável tentar mostrar-lhe que não faz sentido acusar a ONU de genocídio e,
no mesmo ato, consagrá-la como autoridade moral sacrossanta que o malvado
imperialismo ianque não tem o direito de desobedecer.
É inútil informar aos indignados desmascaradores de interesses petrolíferos
que estes são da França, não dos EUA. E é inútil lembrar a qualquer deles
que, se algum fornecedor de armas tem culpa do que fez Satã Hussein, a culpa é
proporcional ao tamanho do estoque fornecido: 57 por cento russa, 13 por cento
francesa, e assim por diante até o último da fila, os EUA, com exatamente um
por cento, isto é, metade da quota de culpa brasileira.
É inútil dizer a essa gente o que quer que seja, porque a parte falante e
escrevente deste país já consagrou o antiamericanismo como a suprema e única
virtude, em cujo altar devem ser queimados até os últimos resquícios de
escrupulosidade moral.