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- Monocromia secreta de um final de ano - E quando ouvir Lulu Santos...
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Citações e Excitações - ou A Arte de Enrolar
Ele: - Responde, vai. Você tem certeza de que é feliz comigo? Nunca entendo esse seu olhar divagante.
Ela (mascando chiclete, como quem masca o tédio): - hum?...
Ele: - Perguntei se ainda é feliz comigo.
Ela: - Bem... digamos que... "a existência precede a essência" - Sartre!
Ele: - Muito bem, mas o que isto quer dizer? Dá p'ra ser objetiva?
Ela: - Isto quer dizer que "se você recorda a si próprio quando você é você, você não está com o propósito de criar você" - Gertrud Stein, saca?
Ele (irritado) - Não, não saco. Tá a fim de abrir a relação, é isso?
Ela: - "Sossegadamente fitemos um ao outro e aprendamos que a vida passa, e não estamos de mãos enlaçadas" - Ricardo Reis! Linda essa, não?
Ele: - Isto quer dizer que você soltou minha mão e vai me mandar à luta?
Ela: - Mas será que você não consegue captar a profundidade do que digo? Tem sempre que ser literal e levar tudo a ferro e fogo? Que coisa mais limitadora!
Ele: - Chega de me enrolar com essas citações! Não dá p'ra falar com as próprias palavras?
Ela: - Não adianta. Você não entende...
Ele: - Nem eu e nem você! Já estou farto desse seu gênero pseudo-intelectual barato e pouco prático de ser! Foi a fórmula que encontrou para fugir das decisões.
Ela: - "A potência intelectual de um homem se mede pela dose de humor que ele consegue ter" - Nietzsche! - Essa é boa, hein? E você não está tendo nenhum senso de humor agora.
Ele: - E a potência sexual não conta? Intelectualismo é coisa de bicha ! Esses manés todos que você citou aí deviam ter sérios problemas sexuais! Tudo um bando de veados!
Ela: - Conta, claro! Mas aí eu teria que recorrer a Darwin, e não me vem nada dele à cabeça agora.
Ele: - Dá prá ser mais clara? Tá a fim de me provocar, é? Pergunta simples: ficamos ou abrimos?
Ela: - Ai, quanta dicotomia, mon Dieu! Tudo é tão relativo...
Ele: - Já sei, já sei: Einstein. Desisto...
Ela: - Bem, esse relativo é relativo... Einstein não deve ter sido o primeiro a dizer isto mas...
Ele: - Chega! Vá pro inferno!
Ela: - "O inferno são os outros" - Sartre!
Ao final, tirando o chiclete da boca, suspirou indiferente com seus botões:
- Homens são tão primários, que horror!... "Horror de sentir a alma sempre a pensar..." - Fernando Pessoa! ;)
TANTO EM COMUM
Foi uma bela tarde. Almoço soberbo. Um dia imoral de lindo. Não se viam há alguns meses. Reviveram velhas histórias. Inventaram novas. Ora olhavam para trás, ora para frente, o que era uma forma interessante de distrair o olhar do momento solto no ar. Ela resolveu arrematar a tarde com licor e gelo frapée. Ele passou da capirinha de lima ao vinho. E tome licor. E tome vinho. Passadas algumas horas, ele retira do bolso uma cartela prateada e diz:
- Isto aqui é fantástico! Vai nos permitir beber sem consequências! Nem todas as consequências são boas, você há de convir.
- O que é isto?
E ele, com ar triunfante de quem descobriu a solução para manter longe qualquer mal-estar, estende orgulhoso a cartela de comprimidos:
- Antak ! Uma maravilha para o estômago e o fígado. Tome um, você não vai sentir nada, nem dor de cabeça.
- Ah, que coincidência! Quando você se levantou para ir ao toilette, eu já tinha tomado o meu. Sou precavida.
Ao invés de se sentir frustrado pelo fato de a grande sugestão não ter sido algo inédito, concluiu exultante:
- Eu sabia que você era a mulher da minha vida! Não falei? Veja quantas coisas temos em comum!
Isto sim é romance, o resto é literatura :)
(o fato é verídico)