Conto de Ano Novo - Volta ao tempo que não volta


Reencontraram-se na rua por acaso, e para a total surpresa de ambos. Quase um susto transcendental. Teria sido um reencontro comum, não fosse o longo e silencioso hiato de doze anos em que não mais se souberam. Ele a convidou para almoçar no restaurante mais próximo.  As mudanças físicas não iam além de uma ou outra ruga. Neste aspecto, o tempo fora, de certa forma, generoso. Mas, em compensação, havia todas as outras mudanças do mundo. 

Experimentavam agora espécie de transe, tomados pela emoção e por uma confusão de inexplicáveis sentimentos. Quase não tocavam em seus pratos.  Não sabiam o que dizer. O último encontro havia sido a legitimação do desencontrar, a dor da despedida. Juntos, dividiram no passado um bom pedaço do tempo e os estertores de uma história de amor tão grande que acabou por derrotá-los. Desde a separação definitiva, não mais se falaram. Foram calados pelos ecos dos antigos superlativos, de alegria e de desespero, nos últimos momentos. O fato de não mais terem se visto parece ter sido motivado por uma espécie de compromisso tácito, por uma ética interna de não se tocar em feridas.


Agora estavam ali, frente a frente, sem saber o que dizer. Poderiam falar sobre banalidades, mas, naquele exato momento, ficaria tão extemporâneo e forçado que o diálogo perderia o sentido. O discurso estabelecido até então se transformara em um festival de erros semânticos. Arriscaram falar sobre o único assunto que tinham em comum: o passado.  Relembraram viagens, cenas patéticas, velhos amigos, o carro conversível, antigas canções, tomando o cuidado para não trazer à tona as cenas machucadas. Quando a memória já se exauria de revolver passados, pediram um café e a conta. Havia por dentro um desejo inconfessável de esticar um pouco mais aquele momento. Talvez um desejo inconsciente de não mais dizer adeus - ou de que nunca o tivessem dito. Isto costuma acontecer quando o adeus é pronunciado sem muita convicção.

Ela sugeriu então que fizessem um tour nostálgico pela cidade, visitando os lugares que marcaram suas vidas. Como eram muitos, limitaram-se a uma escala na Floresta da Tijuca, outra no Jardim Botânico, e a última na rua onde moraram. Todos os lugares estavam lá, quase do mesmo jeito, não fosse a indômita proliferação da flora no Jardim Botânico - pois que a vida não pára de se refazer só porque alguém se "se-parou". Só eles haviam mudado de lugar e de sonhos. Inevitável excluir uma certa melancolia dessa incursão ao passado. Não exatamente uma melancolia ruim, tratava-se de uma espécie torpor diante da imobilização do tempo no passado.

- Poderia ter sido tudo tão diferente... - suspirou.

E ele lançou-lhe um olhar de cumplicidade, continuando o diálogo como que a roubar dela os pensamentos:

- Poderia. Poderia sim... Nosso destino foi interrompido precocemente, não cumpriu seu curso, é o que sinto. Antecipamos, usando uma força que nem tínhamos, a hora da separação. 

- É possível. Talvez nossa ruptura não estivesse nos planos da natureza das coisas. E ficamos com essa permanente sensação de que algo vital foi violentamente suprimido de nossas vidas.

Olhavam-se tão profundamente que qualquer palavra, naquele átimo do tempo, soaria como mero ruído. Para se desviar do perigo dos olhares, ela continuou a falar:

- Talvez tenha razão. Mas de que adianta tudo isso, não é mesmo? A vida não haveria de nos perdoar. Por mais que voltemos no tempo, o tempo não volta. Então, "andiamo!"

Queriam se ver novamente, mas temiam qualquer movimento que pudesse banalizar a força das grandes memórias, tornando-as comuns. Jamais retomariam do ponto onde pararam. Mas, por outro lado, o destino deve ter lá suas razões para tê-los colocado frente a frente mais uma vez, quando menos esperavam. Quem há de entender seus estratagemas? Fazem parte do mistério da vida, que só o tempo revela (ou não). Talvez uma derradeira frase tenha ficado por dizer.

Por alguma fatal ironia, era véspera de Ano Novo. E, com uma fresta de esperança em suas expressões, deixaram no ar as últimas palavras, que agora já se voltavam para o futuro, a partir daquela tarde  - para qualquer possível futuro:
- Feliz Ano Novo! 
- Feliz Ano Novo!

E havia tanta sinceridade no "Feliz". Era mesmo o que desejavam um ao outro, não importava quando, onde ou com quem.

©® Marcia Cardoso